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BAD CINEMA em Coimbra


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



MATE Festival

BAD CINEMA é um projeto transdisciplinar do artista Sama, que se apresenta para o grande público no âmbito do Festival MATE em Coimbra. Nesta ação artística híbrida, que é apresentada em variados suportes, vídeos, pinturas, desenhos, música e spoken word, indentificámos referências nas produções dos“B Movie”, filmes de baixo orçamento, oriundos principalmente dos anos 70 e 80 do século XX, que abarcavam géneros diversos como, ficção científica, horror, artes-marciais e subgéneros como, sexploitation, giallo etc… Filmes, muitos deles assistidos em reprises na televisão, que outrora influenciaram o artista, e que, de um certo modo distorcido, e às vezes até jocoso, preconizaram os efeitos nefastos do Capitalismo Tardio no estado das coisas na atual configuração social, política e econômica ocidental. Soma-se a este caldo de cultura seminal, referências aos comix, romances policiais e a música punk. Também integram o projeto a artista e cineasta Luísa Sequeira, o músico Veredas, além de eventuais luxuosas colaborações, como o guitarrista e também artista multidisciplinar Victor Torpedo. Nas performances são executadas peças sonoras, leituras, desenhos improvisados e projeções de cinema expandido.



OBRIGADO BELPHEGOR - Um conto samânico...




Sinopse:
 
Num isolado motel no litoral brasileiro, um estranho acontecimento dá origem a mais um enigmático caso para Toni Jagube, o detetive do oculto. Em Obrigado Belphegor, as suas peculiares capacidades de investigação aliam-se às visões despertadas pela ayahuasca, levando-o a enfrentar um mistério onde o sobrenatural e a realidade parecem confundir-se.













 

Detetive Ayahuasca


 
Detetive Ayahuasca é uma obra audiovisual derivada do texto: “A Miração”, que integra a publicação independente, "Detetive Ayahuasca, investigador do insólito" de Sama. A peça relata uma experiência do próprio autor com a ayahuasca. Como num relato investigativo, o alter ego do artista, sob um estado alterado de consciência, narra suas visões, deixando ao espectador a possibilidade de estabelecer nexos entre a nossa condição existencial contemporânea, com vislumbres da nossa ancestralidade integrada à natureza. Realização: Sama  Paisagem Sonora: Guilherme Barros  Imagens: Luísa Sequeira e Sama.

 

A MIRAÇÃO

 







 

 

  

Detetive Ayahuasca

Era o fim de tarde do último dia, antes das autoridades decretarem o confinamento, quando um velho amigo meu, recém chegado da Amazônia, me convidou à sua casa para tomar Ayahuasca. Não era a minha primeira vez, mas foi a experiência de que mais recordo dos detalhes da minha"miração". Não integro, nem tenho objetivo de participar de qualquer seita ou culto. Apesar de submeter-me a um procedimento ritualístico de aura mística, nas vezes que tive a oportunidade de usar a Ayahuasca, foram num contexto de curiosidade empírica e de busca pessoal por conhecimento imaterial, sem envolver atividade religiosa institucional. Os eventos que escolhi para relatar aqui, são as representações mais próximas do que vislumbrei na ocasião e de certa forma, uma inspiração para a criação da minha personagem: Toni Jagube, o “Detetive Ayahuasca”.

Na casa deste amigo, ocupamos o seu quarto. Lá, além da cama e do armário, havia uma escrivaninha encostada à parede e mais ao centro, uma pequena mesa circular onde estavam colocados, uma garrafa com o conteúdo cheio e dois copos. A mesa estava entre duas cadeiras de madeira, viradas para a escrivaninha e de costas para a janela. Já sentados, conversamos um pouco sobre a política, a pandemia, o Brasil e também sobre outros assuntos mais leves…

Quando alcançamos um estado mais relaxado, começamos a beber o preparado. Depois, o meu amigo desligou o candeeiro e acendeu uma vela que estava num pires sobre a escrivaninha. Por experiência sabíamos que, mesmo depois de relaxados, não deveríamos nos desconcentrar da luz emitida pela vela. E assim seguiu-se a sessão. As palavras foram escasseando-se e após algum tempo, que não sei precisar, as sombras bruxuleantes de objetos como: porta-lápis, candeeiro e alguns livros que estavam empilhados por ali, começaram a tomar novas formas. A partir daquele momento, meu único interesse era tentar reconhecer figuras naquelas silhuetas dançantes que, aos poucos tornavam-se mais definidas...
De início, as formas das sombras pareciam ser pequenos cães a brincar. Então, me dei conta que, pelo formato da cabeça e das orelhas arredondadas, não eram cães, mas sim pequenos felinos, filhotes de onça, embolando-se, saltitando e a darem-se mordidelas e cambalhotas.
Sorri em silêncio. O brilho oleoso da vela havia capturado meu olhar. Através da fissura incandescente da chama, revelou-se uma passagem inter-dimensional. Do centro dela, irradiavam-se raios de luz como os de um antigo projetor de cinema, visto de frente. E em vez de testemunhar este fenómeno como um espectador sentado na plateia, eu era a tela. As imagens se constituíam pequenas e indefinidas ao saírem do núcleo da chama, daí ganhavam tamanho e definição vindo em minha direcção. Às vezes, demoravam-se um pouco em frente aos meus olhos, para então continuar a avançar até me trespassarem. Nunca olhei para trás, mas tinha a sensação de que, depois que estes seres etéreos passavam por mim, seguiam além a reverberar pelo infinito...

O que no princípio eram pontos vibrantes, micróbios a nadarem numa sopa espessa, aos poucos definiram-se como pessoas a chafurdarem numa enorme poça de lama... Mas, uma lama morna e agradável. Acho que eram dezenas de bacantes, talvez mais, a passarem por mim. Depois vi as pulgas-búfalo em volta do fogo, não... Não eram pulgas, mas homens diminutos, que cresciam nus usando máscaras, dançando em volta da fogueira num ritual primitivo. Havia uma mulher entre eles, no meio deles... Aliás, a fogueira é a mulher! E ela dança freneticamente agigantando-se até me engolir com sua vagina flamejante ao passar por mim... Sinto o cheiro dos pêlos queimados do meu braço. Não é dor, é calor. Estou a transpirar, fico tão molhado quanto os peixes que nadam na minha direção, uns tentam me beijar, mas desaparecem ao fazê-lo, acho que engoli alguns. Sinto algo nadando no meu estômago, não vou vomitar, já fui peixe também. Agora sou um anfíbio e me deixo hipnotizar pelos insetos, que voam ao meu alcance, são tantos! Minha língua comprida escolhe o vaga-lume, sua seiva doce desce pela minha goela, preenche-me e escorre
pelos poros, tenho luzes a sair pelas unhas, pela boca, pelo cu e pelo os olhos... É fantástico!

Agora, minhas mãos estão negras e alongadas, tenho também uma cauda, ouço o vento e com habilidade subo por galhos e cipós que me levam de dentro da copa, para o ponto mais alto da árvore, por onde através das folhas vejo o céu. É uma noite estrelada como nunca tinha visto. As estrelas ficam maiores, elas caem sobre mim, está a chover estrelas! Depois que elas passam é só escuridão. Então, vindo daquele breu sideral, ouço uma respiração distante… Como os outros, a silhueta começa pequena e aos poucos vai se tornando maior... Vem de encontro a mim, apesar do tamanho da cabeça e dos chifres, caminha elegantemente sobre duas pernas, como um homem. A criatura pára a dois palmos de distância do meu rosto. Sinto-me como Teseu encurralado no labirinto de Creta. Seus olhos amarelos fixam-se nos meus, ele fica mais próximo ao ponto de eu sentir sua respiração, penso em dar um passo atrás, mas lembro-me que estou sentado e há muito que já não sinto as minhas pernas. Suas narinas sentem o cheiro do meu medo. Paro de resistir e rendo-me a criatura com a cabeça de Gnu. Ele avança e passa através de meu corpo, deixando-me com um frio na espinha.  

Agora tudo são flores... Orquídeas, crisântemos e rosas que voam no meu sentido. Seus longos caules revelam-se veias e artérias, pulsando, bombeando sangue. Ouço a minha própria circulação! As dimensões ampliam-se, vejo plaquetas, hemoglobinas, células, vírus e bactérias... A chama continua a dançar, como uma odalisca de quadris largos a fazer movimentos sinuosos que só não deixam meu queixo cair, porque delicadamente uma das gentis serpentes que ela tem no lugar dos braços, o põe o meu maxilar no sítio, devolvendo
assim, alguma dignidade ao meu rosto pasmo. Com os olhos semicerrados, observo uma alvorada, um pequeno Sol em forma de boca, que cresce e me engole. De repente, sinto tocarem-me no braço. Era o meu amigo a me chamar. Uma luz artificial acendeu-se e a vela consumiu-se. Estávamos de volta. Balbuciamos algumas palavras como se estivéssemos recém despertados de um sono leve. Estávamos bem. Levantamos devagar e num quase mudo entendimento, decidimos que conversaríamos sobre a nossa experiência em outro momento. Então bebemos um pouco de água e depois, agradecido pela partilha, despedi-me e parti. No caminho para casa, tudo no mundo parecia igual, com exceção do brilho das luzes, estas brilhavam um pouco mais do que o habitual.

Sama





Seria o coronavírus mais uma arma da Guerra Híbrida?















China, Iran, Russia entre outros euro-asiáticos são países estratégicos das novas Rotas da Seda, o motor contemporâneo da economia mundial do sec. XXI, que visa mais o desenvolvimento em bloco, a partir do comércio e parcerias em desenvolvimento tecnológico e troca de matérias-primas, do que a aposta no velho modelo colonialista bélico, herança européia potencializada ao máximo na expansão imperialista dos Estados Unidos. Seguindo este raciocínio, o epicentro da crise do coronavírus ser na China, seria só um golpe de azar sofrido pelos orientais? Ou o coronavírus seria uma arma perfeita, pois além de atacar os concorrentes da aliança americano-sionista, em breve também irá impossibilitar a aglomeração de pessoas para realizarem protestos em massa contra os efeitos do capitalismo ultra-liberal, que vem crescendo em várias partes do planeta... Um ardil anti-revolucionário, a moda malthusiana que alguns progressistas verdes gostam muito, olha o Thanos aí... Pois como alguns especialistas já especulam, o efeito da "paragem das máquinas" beneficia o meio ambiente e junto com o desejo fascista de morte que impregna a espuma dos dias atuais, justificaria um tipo de "solução final", eliminando uma parte da população humana do planeta, seria a parte fraca? A entrada do coronavírus na Europa via Itália, deve-se às inúmeras relações que os chineses tem com o país de Marco Polo... Ah, mas os norte americanos e europeus, eles iriam por em risco os seus também? Claro que sim! Coloque na conta alguns cidadãos do primeiro mundo como efeito colateral, para dar veracidade, comoção e desvio de foco. Lembrem-se do 11 de Setembro, talvez o ponto de início desta estratégia, "a la Ozymandias",  da ameaça maior que faria as nações adversárias se unirem para combater um inimigo comum, tese que norteia as decisões do mundo ocidental até agora, com base em contra-informação, espionagem, fakenews, Estados Policiais, Guerra ao Terror, ISIS etc... Fica no ar a resposta, se em algum momento os libertadores deste novo Anjo da Morte, vão conseguir controlá-lo... Bem, tudo isto é só uma teoria, às vezes, acordo pensando nestas coisas, mas já tomei café e li as notícias, para relaxar... E olha só a coincidência, cientistas de Israel e dos EUA declaram que já estão trabalhando numa vacina, ou um anti-viral que pode neutralizar a ameaça biológica, não é incrível! São mesmo muito ligeiros, os israelitas e os americanos, mas levando em consideração a hipótese, que eles próprios podem ter desenvolvido tal engenho, é compreensível... Mas ironicamente, é do Brasil e de Cuba que uma esperança sinaliza, aguardemos... Voltando as notícias, no Mediterrâneo a guarda costeira da Grécia e não só, empenha-se em não salvar refugiados à deriva, isso mesmo, missão de "não salvamento!" E no Brasil, continua a escalada na matança de indígenas e ocorrências de feminicídios, além do regular extermínio de pobres e negros... Na primeira semana de março de 2020, um mês pautado por manifestações, tivemos o assassinato de Daniquel Oliveira, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), pela Polícia Militar, a mesma corporação que há poucos dias, amotinou-se no Ceará, matando quase 200 civis, com as bençãos do Ministro da "Justiça" Sérgio Moro, enquanto o Sociopata Bolsonaro, Presidente sem talento, veste-se de palhaço, também sem graça, no corpo de outrem e distribui bananas, para desviar a atenção e seus falhanços na administração do país, mas principalmente do caso dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes entre outras falcatruas, nas quais ele e a sua família estão implicados... Será que todos eles apostam que o anjo exterminador, coronavírus, irá conseguir salvá-los deles próprios? Leio também que, na pré-eleição dos partidos nos USA, os Democratas parecem preferir, um segundo mandato de Trump, do que apostar em Sanders, reforçando a máxima que, é mais fácil acabarmos com o planeta, do que ousar repensar o Capitalismo ou quiçá, criar uma alternativa para ele...
Melhor eu parar por aqui... E enquanto consigo, vos recomendo: Make Love, Not War (tradução: Viva as Mulheres, Abaixo o Machismo!)

Sem Memória

O artista e a obra. Foto: Luísa Sequeira






Sem Memória, colagem sobre tela, 120 x 100. Foto Luísa Sequeira
























Sama explicando o Brasil para os europeus, como um país que sofre um processo de apagamento da própria memória.














"Sem Memória" é o título do meu trabalho na Mostra coletiva UIVO. TERRITÓRIO é o tema desta edição.
Meus agradecimentos a todos os envolvidos neste fantástico evento, em especial a curadora, Cláudia Melo e sua competente equipa. A questão no meu trabalho é sobre o território da memória, ou melhor, da falta dela no Brasil. Mas isso foi apenas o meu pretexto para a produção desta obra, fiquem à vontade para interpretá-la como quiserem, agregar significados, sentidos etc...

Mãe Preta no dia 8 de março


















De modo geral a vida tem se tornado cada vez mais dura…
Dura para os discípulos do capital, que têm de passar cada vez mais o tempo de suas vidas deprimidas e esvaziadas de sentido em gaiolas seguras e controladas, úteros de aço e vidro frio que não reconhecem suas crias a não ser pelos códigos de seus cartões de plástico. Mas, a vida pode ainda ser mais dura para aqueles que nem gaiolas possuem! Vida bem dura para aqueles que não aparecem no Google Earth, nem nos comerciais, mas são reconhecidos pelos drones como alvos… Dura vida também para os que são bombardeados, para os que fogem da fome, do desemprego, das perseguições religiosas, políticas e das mais variadas formas de violência... Mas sem querer estragar as celebrações deste dia especial, lembro-vos que a vida é mais dura ainda para as mulheres, que na ordem destes acontecimentos brutais, são sempre as mais expostas em qualquer nível desta escala de eventos hediondos… E nesta sequência de desgraças, a existência consegue ficar ainda mais difícil para aquelas que se atreveram a nascer com a pele escura. Para elas, são reservados sempre os fardos mais pesados e os espinhos mais pontiagudos… Ainda não há nome para esta covarde manifestação de ódio que combina racismo com misoginia. No entanto, toda mulher negra é um pouco a encarnação da nossa história e a última linha de resistência da nossa espécie. Tenha você pele e olhos claros, sardas, cabelo liso ou dourado, a Mãe Preta é a mãe de todos nós. Ela, é o ser humano primordial. Se para os monoteístas, o Homem foi criado a imagem e semelhança de Deus, este Deus é uma mulher negra, que continua a ser sacrificada diariamente numa vã tentativa de expurgar nossos pecados.

NÃO VAI TER GOLPE, JÁ TEVE GOLPE! Por Sara Figueiredo Costa para a Revista Blimunda

                                                                                       




















Em abril deste ano, a Câmara dos Deputados brasileira anunciava 
uma votação que poderia conduzir ao impeachment da Presidente da República, Dilma Rousseff, e à sua substituição no cargo sem recurso 
a eleições. O momento não era autónomo, no sentido em que não se desligava de um contexto complexo e anterior, as manifestações do Movimento Pelo Passe Livre, a contestação em torno da Copa do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos que decorreram este ano 
no Rio de Janeiro, os escândalos de corrupção no Governo, actual e anterior, uma eterna clivagem entre ricos e pobres que parece não permitir escapatória. O artista brasileiro Sama, residente em Portugal, foi um dos muitos que usou a sua voz e os recursos que compõem o 
seu trabalho para manifestar uma posição sobre o sucedido.

Nada a Temer 

 É um livrinho singelo no seu formato, trinta e seis páginas agrafadas, capa mole, impressão a duas cores, quase uma plaquete, em edição 

de autor. Lá dentro, duas bandas desenhadas (ou histórias em quadrinhos), vários cartoons e ilustrações, um conjunto de textos, tudo sobre os recentes acontecimentos no Brasil. Na capa, apenas o título, o nome do autor e, sobre um fundo cor-de-rosa, uma mão que estica o dedo do meio num gesto que não necessita de legendas. Os trabalhos que Sama aqui reúne não são inéditos, tendo circulado na internet, no blog do autor e na REVISTA VICE, entre outros espaços, mas a sua compilação num volume único confere ao conjunto uma capacidade de refletir sobre os acontecimentos que têm marcado o Brasil nos últimos meses. Como explicou Sama à Blimunda,  «foi tudo muito corrido, com exceção de alguns cartoons que eu já tinha desde 2013, quando as grandes manifestações eclodiram no Brasil. A maior parte do material é mesmo muito fresca. A BD-reportagem, “Contra a Tarifa”, é de janeiro, sobre as manifestações do MPL ocorridas em dezembro de 2015 e janeiro deste ano, e “Foda-se, é Carnaval!” foi mesmo feita na altura do Carnaval deste ano. Ambas foram publicadas pela Revista Vice.



Alguns cartoons e textos foram notoriamente feitos para a publicação no calor dos recentes acontecimentos da política do Brasil dos últimos meses. Estava estarrecido com as notícias e queria fazer algo a respeito. Fui conferir o que já tinha feito e percebi que tinha imenso material. E olha que muita coisa ficou de fora, pois as informações visuais, como quadrinhos, charges e cartoons ocupam muitas páginas... Decidi então usar alguns textos de pessoas que percebem bem o Brasil. 
As colaborações chegaram praticamente a menos de uma semana do projecto ir para a gráfica.» Entre elas, contam-se textos de Carlos Tê, Luísa Sequeira, Joana Lopes e José Soeiro. Há ainda um texto de Noam Chomsky que, segundo Sama, «não foi participado ainda... Saquei-lhe o texto de uma declaração que ele fez na televisão americana.» Quanto às restantes participações, o autor sente-se agradecido: «Só tenho boas palavras para descrever isto que aconteceu... Há muito que eu e o Carlos Tê queríamos fazer alguma coisa juntos. Pensávamos que esta primeira colaboração seria algo para o cinema ou para a HQ, mas pela urgência dos factos acabou sendo este texto meio desabafo, meio declaração de amor ao Brasil, que ele conhece tão bem. Com o José Soeiro foi um aproveitamento de uma declaração dele na sua página do facebook. Entrei em contacto e perguntei-lhe se poderia usar o texto no projecto, expliquei-lhe o contexto e ele concordou, adaptámos o texto para a publicação e voilà! A querida Joana Lopes, que é um prodígio a escrever sobre política, foi convidada por mim e prontificou-se em dar seu parecer sobre o “freak show” dos parlamentares brasileiros a votarem o Impeachment da Presidente Dilma Rousseff. A cineasta e jornalista Luísa Sequeira, que conhece o Brasil como poucos brasileiros conhecem, ficou com a apresentação.

Sama e Carlos Tê na apresentação do Nada a Temer







»Uma das histórias de Nada  a Temer  apresenta-se como reportagem, acompanhando as manifestações do Movimento Passe Livre, em São Paulo, já no início deste ano. «Contra a Tarifa» segue as linhas de um trabalho jornalístico, apresentando o contexto geral, explicando os factos na origem do movimento (o aumento dos preços dos transportes públicos, decidido em dezembro de 2015 pelo Governador, pelo Prefeito da cidade e pelas empresas transportadoras), analisando as consequências destes factos no quotidiano da cidade e seguindo de perto algumas das muitas manifestações que ocuparam as ruas de São Paulo. Importa dizer que Sama não cumpre a regra da imparcialidade jornalística, não se abstendo de comentar o papel da polícia e da repressão, apropriando-se de partes do discurso dos manifestantes. Uma das mais interessantes linhas de leitura desta história é, por isso mesmo, a reflexão sobre essa ideia de imparcialidade e o modo como serve, ou não, os leitores. Que tipo de imparcialidade se pode almejar quando as notícias de maior circulação revelam, tantas vezes, fraca informação sobre as manifestações, generalizações inaceitáveis sobre o comportamento dos manifestantes, poucos dados sobre o negócio na origem do movimento? Perceber que papel pode ocupar uma banda desenhada como esta na informação a que todos temos direito, lendo-a à luz de outros movimentos de informação alternativa que estão, queiramos ou não, a mudar a face da informação e do modo como esta circula, pode ser essencial nos próximos tempos. Sama contou à Blimunda que, para além de teatro, estudou jornalismo «na Faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, faz tempo, isso... Nunca tinha exercido, até agora. Será que irei precisar da minha carteira?» «Contra a Tarifa» é, portanto, o trabalho de um jornalista com formação, mas esse facto não faz Sama prescindir de uma opinião sobre os movimentos de informação que têm surgido, no Brasil como em muitos lugares do mundo, à margem dos média tradicionais. «Olha, gosto muito da iniciativa da Mídia Ninja, ainda mais considerando que as fontes oficiais no Brasil não são lá muito confiáveis. As minhas fontes são bem diversificadas, além de ser brasileiro e ir com regularidade ao Brasil, leio bastante e troco muito com outros profissionais da área de opinião e de jornalismo. Considero-me um autor de ficção, mas estou a ficar cada vez mais à vontade com os relatos de “não ficção” e biográficos. E confesso que os factos, não só no Brasil, mas de um modo geral, estão muito mais assombrosos do que qualquer ficção hoje em dia...» Ainda assim, o autor não confunde os planos da realidade e da ficção, clarificando que este livro não é, todo ele, uma peça informativa, mas insistindo na importância da informação dita alternativa numa altura em que os média perderam grande parte da sua independência, tão essencial: «Em algumas peças, expus metáforas e também caricaturas da realidade urbana brasileira, mas no seu contexto geral, NADA A TEMER é o mais sincero possível. Independentemente disto, acho que há que ter sempre cuidado com qualquer fonte de informação nesta era em que vivemos... Existe muita informação boa e ruim a circular por aí. Infelizmente, cada vez mais os meios de comunicação estão a serviço do capital privado, a publicitar pensamentos uniformizantes ao invés de informar ou noticiar. Recomendo a todos que, antes de aceitarem qualquer notícia de algum jornal, revista, TV,
pesquisem e tenham conhecimento de qual grupo este veículo emissor faz parte e a quais propósitos ele serve.



















»Sama tem desenvolvido um percurso consistente na Banda Desenhada, na ilustração e nos territórios adjacentes. De seu nome Eduardo Filipe, o autor publicou nas revistas Piauí, Argumento,  General, integrou antologias internacionais, teve o seu trabalho destacado em exposições e galerias e, em 2011, assinou o livro,   
A BALADA DE JOHNNY FURACÃO. A versatilidade do seu traço é notória neste último livro, do detalhe necessário à configuração de um espaço e um contexto reconhecíveis na história «CONTRA  A TARIFA» à composição de pranchas mais livre, com espaço para a languidez das personagens respirar em todo o seu esplendor em «FODA-SE, É CARNAVAL!», passando pelos diferentes registos, colagens, experimentações nos cartoons e nas pequenas tiras que povoam NADA A TEMER. Usando para título do seu livro a frase-slogan apropriada por muitos milhares de pessoas para contestarem o novo presidente do Brasil, Sama coloca nestas páginas a sua voz e a de muitos outros que não aceitam o Impeachment, assumindo que o que aconteceu no Brasil foi um Golpe de Estado. Quando se anunciou a votação do Senado brasileiro, o movimento NÃO VAI TER GOLPE  espalhou mensagens pela internet, pelas ruas do Brasil e por alguns outros lugares do mundo onde brasileiros ou gente de outra nacionalidade se solidarizou com aqueles que, no Brasil, não queriam o resultado que acabou por ser o da votação. Depois de semanas agitadas, política e socialmente, aquilo que estes manifestantes não hesitaram em apelidar de golpe acabou por acontecer. De acordo com a visão de Sama, «o golpe já vinha ocorrendo há muito e ocorre a cada instante, no Brasil e no mundo. Ocorre nas pequenas acções, não só na oficialidade de uma troca de representante. O golpe vem sendo tramado nos bastidores, o que assistimos no palco do teatro político é só o resultado de um trabalho sujo de mais de meio século atrás. Sobre o futuro, qualquer previsão mais específica seria imprudente da minha parte ou de qualquer um, mas de um ponto de vista “macro” podemos detectar uma tendência mundial para uma fratura generalizada da Democracia, caso esta continue subjugada pela política neoliberal, imposta por um poder econômico amoral, amorfo e quase abstrato. Como citei antes, os atores estão aí a representar seus papéis: pastores, juízes, advogados, políticos, empresários, etc... Mais eficiente do que substituí-los, é combater aquilo que os corrompe, que nos corrompe a todos nós.» Já teve golpe, mas continua de pé a vontade de o interromper.

Sara Figueiredo Costa 


Link Blimunda

Sama & Freddy Locks




















Este desenho faz parte da série de peças produzidas em performance com a banda de reggae, Freddy Locks nos "Concertos Desenhados" do XII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.