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Cogumelos Incandescentes

Desenho realizado de olhos fechados pelo autor
Desenho realizado de olhos fechados pelo autor



 
Quando os primeiros cogumelos incandescentes foram avistados no horizonte, foi um espetáculo bonito de se ver... Para algumas centenas de milhares de habitantes deste planeta, foi a última maravilha que seus olhos e sentidos contemplaram antes de seus corpos derreterem, despedaçarem-se, ou simplesmente serem chacoalhados. Muitos sucumbiram doentes, famintos e desidratados nas semanas ou meses que se sucederam... Estas respostas físicas variavam conforme às distâncias dos corpos em relação aos pontos de impacto. Segundo o relato dos antigos, que eram crianças na altura dos eventos, após os incêndios, houve um longo e silencioso inverno sem Sol... E muitas Luas depois, quando a poeira baixou, um novo mundo árido revelou-se... Quase toda a vida havia se retraído e com exceção das nutritivas baratas, algumas outras raras espécies de animais e das plantas ruderais, apenas poucos antigos e os nascidos mutantes, adaptados à radiação, sobreviveram. Mas foi graças às mutações, que gradativamente a natureza encontrou um novo caminho... E entre os recentes povoamentos, novos modos de ser e de se estar em comunidade vem sendo experimentados com relativo sucesso. Segundo o código das leis, o ocupante do cargo de orientador das tribos e seu conselho, devem ser democraticamente substituídos, após um ciclo de cinco solstícios de verão de serviços prestados aos indivíduos e agrupamentos, porém é imperativo a alternância de gênero de todos os seus participantes. É também proibido extinguir a vida de qualquer criatura, animal ou vegetal, inclusive baratas, a não ser no caso de saciar a própria fome, ou prover alimentação. A propriedade privada foi abolida e o monoteísmo considerado uma aberração.

Sama 24/03/22

Tha Future...

Sobre os vivos e as coisas... Por Sama.





















Quando não tratarmos bem dos nossos mortos,
seus fantasmas nos assombrarão eternamente.
Há no subsolo brasileiro,
uma imensurável quantidade de sagradas riquezas,
que é amaldiçoada por uma gigantesca legião
de corpos que ocupam estas mesmas entranhas…
Outrora foram pessoas que não tiveram
suas vidas e mortes respeitadas…
Encontram-se misturados aos veios de ouro,
prata, nióbio, ferro e minérios de toda sorte.
São Índios, Negros, Mulheres e Homens.
Todos pobres, desviados, desavisados,
inconformados, indignados,
crianças e velhos com suas histórias e tradições…
Sacrificados junto com rios, matas e animais
em nome dos parasitas do Capital.
Mas até os vermes sabem que,
uma vez contaminado o Sal da Terra,
o barro que nos molda se tornará um pó de nada,
sem nutrientes e nem para adubo nós serviremos…
A sanha dos 0,01% terá seus 99,9%
de satisfação instantânea, analógica e virtual para,
então, num curto orgasmo artificial,
extinguir-se também num sopro de tempo,
que durará menos do que a lembrança
de um sonho bom numa manhã atribulada
no pregão da bolsa.
Para esta maldição ser quebrada,
primeiramente devemos libertar nossos mortos,
honrar suas memórias e lembrar suas glórias.
Só então nós vamos nos encher
de sentido novamente e voltar a sermos
capazes de distinguir entre os vivos e as coisas…
As coisas são aquilo que
se pode comprar,
negociar,
oferecer…
Elas não são boas nem más, são apenas coisas.
Sua serventia é que deve ser imbuída de propósito.
Quanto aos vivos, estes devem despertar,
mesmo que tardiamente,
para tentar evitar o caminho que já nos leva
diretamente a um horizonte turvo.
Quando os últimos homens de bem desta terra
andarem pelo que restou do país,
hão de se lembrar que não precisava ter sido assim.
Celebremos e aceitemos os nossos mortos
para podermos reencontrar o sentido da vida
Os ocupantes das covas rasas,
encontrarão na sua derradeira viagem
as mesmas condições dos hóspedes
dos mais suntuosos mausoléus e
a Terra sem distinção nos devorará a todos.
Um gesto democrático da natureza
para nos lembrar que, para ela,
somos todos iguais.

Choque do Presente

Em literatura, cinema ou no universo das bandas desenhadas, eu sempre curti uma "distopia". Uma visão sombria de um futuro punitivo para a nossa cruel negligência humana... Mas confesso que nunca imaginei que iria vê-la acontecer de verdade, mesmo depois de tantas guerras, crises e conquistas. Penso que devíamos ter aprendido mais com
a nossa história. O curioso, é que, com exceção de algumas zonas em conflito,"oficialmente" o mundo está em paz. Mas mesmo assim podemos identificar no globo, várias características distópicas ocorrendo a nossa volta, tais como nas obras: "1984", "Admirável Mundo Novo", "Choque do Futuro", "Fahrenheit 451" entre outras… Identificamos na nossa realidade, sombrias previsões destes livros que estão a acontecer, inclusive até em alguns países que declaram-se como democracias laicas. Enquanto você lê estas linhas, nalguns sítios deste planeta está a ocorrer: a proibição de publicações e leitura de determinados livros, a censura de exposições de arte, crenças fundamentalistas a substituir conceitos científicos, gentrificação e monetização do indivíduo, destruição sistemática do meio ambiente, segregação econômica e racial entre povos, além de outras aberrações em nome da nova ordem que quer tomar o universo para si. Tudo isso passa-se sob o véu da ilusão de que existimos numa comunidade globalizada e tolerante onde desfrutamos da opção da "hiper-escolha", tão valorizada no chamado, mundo livre. Livre para o capital, só se for, porque neste cenário, está cada vez mais difícil para o indivíduo existir na sua plenitude sonhadora. Se o que era ficção tornou-se real, fique atento, pois nesta lógica, em breve você será a ficção, um mero dado a ser acrescentado no grande arquivo da máquina. Ouvi dizer que sonhar nos mantém fora do alcance da máquina. Mas sonhe em estado de vigilância, porque a máquina não dorme.
Abaixo, tomei a liberdade de extrair um trecho de "Tubarões Voadores", uma HQ/BD do álbum, "Território de Bravos" do Luiz Gê de 1993, que muito me influenciou e ainda me encanta.

"Afinal, esta é a harmonia da vida. Por isso feche portas e janelas, Joãozinho! Não adianta nada deixar a janela apenas entreaberta... As janelas devem ter grades e as portas, trancas... As trancas, cadeados... E os cadeados, fechos de segurança. Pois no coração do prudente descansa a sabedoria."





















Nesta história, tubarões com capacidade de voar, não encontram muita resistência para alcançar suas vítimas, representadas pela figura do cidadão comum... Numa alusão a um mal improvável, mas furtivo que paira sobre nosso mundo palpável e ordinário. Entretanto, hoje vivemos em ilhas com fronteiras sutis e oportunas, que abrem-se ou fecham-se ao sabor das marés econômicas e políticas... Marés que trazem ameaças quase invisíveis, mas que trazem também mensagens em garrafas, notícias de outras ilhas, de outros tempos que o oceano virtual insiste em misturar dificultando a clareza de sua compreensão. Cabe a nós, com a prudência de nossos corações decifrá-las.